Noblesse oblige sabe o que é?

Nascido em bom

berço, com chances

especiais de mamar

quando queria e poucos

mosquitos ao redor.

Cresceu em boas cenas,

família inteira, até avós!

Estudou direitinho e

dos dentes tratava sempre

com hora marcada.

Namorou no quadrilátero

do bairro, dentro do zoneamento

previsto no código urbano

das casas e prédios parecidos

e asfalto em todas as ruas.

Decidiu profissão com chances de

pesquisa, conversas, visitas e

até experimentação. Aproveitou

outros conhecimentos que sempre

estiveram disponíveis por ali.

Ao redor, todos falavam bem e sabiam

se expressar, pensar, se vestir e portar

em ambientes limpos, cheirando lavanda,

com água e esgoto tratados adequadamente;

Desde pequenino lavava sempre as mãos.

Tudo isto constituiu uma vantagem

e é sabido pelos que moram nas vilas

tidos mesmo como vilões e que

tentam esconder suas unhas sujas

e ramelas fartas.

Esperado, portanto, seria uma dose

de sacrifícios, de abdicação de privilégios

pelo tanto que receberam na largada

sem esforço? Um ceder a preferência

aos demais, não participantes da sua própria classe?

Um instante de reflexão: teriam visto

em alguma corte, sociedade ou época antiga

ou ainda que próxima, dito comportamento

que respaldasse tal crença?

Teriam visto?

Seria esta obrigação mais uma

das lendas, fábulas, cochichos

transmitidos de boca para ouvidos

que ninguém comprova e fica

mesmo assim na história?


Voar é o que nos move

voar

Ícaro já nos revelava
a indisfarçável vocação
latente para o vôo.
Os olhares arrebatados
para o 14 Bis comprovaram

Sim, algo no projeto dos
sapiens ficou faltando:
um belo par de asas
ou até mesmo uma só
bem potente

Consertar esta falha de
projeto não é trivial
e todo o conjunto dos
seres dirigiu seus esforços
e saberes para o contorno

Por fim, houve decisão
silencionsa, de tão óbvia.
Projeto seria incrementado
por dispositivos acessórios
para enfim, funcionar

Tais parafernálias
foram crescendo, assim como
a intenção, o sonho, o desejo
a pulsão de se lançar céu
a fora sobre mares e prédios

Derretendo obstáculos,
revirando convicções,
vai se encontrando um
jeito melhor e mais
confortável

Custos e outros

quesitos fazem parte

dos rabiscos, protótipos,

árvores de decisão

para viabilizar maquininhas

Tantos sistemas incríveis

digestõrio, reprodutor, circulatório

e ficou faltando logo o sistema

que dotasse estes bípedes de

um pouco mais

Missão dada, missão cumprida

ou comprida, não importa.

De um jeito ou de outro,

esmagando o insucesso com

a repetição ainda iremos voar

Sairemos da varanda

e já iremos identificar

possível pássaros metálicos

mais ou menos feiosos

que nos levem daqui

Em alguns minutos

estaremos em outro

ponto de pouso

descendo suavemente,

acertando a cabeleira.

 

Carros voadores

Revisar antes ou faz e manda?

revisar

Revisar, reler

substituir palavras

frases, acertar pontuação

olhar o formato

conferir

Confirmar o

entendimento

a legibilidade

o tom

o vocabulário

Pensar no

entendimento

do outro lado

do lado de

quem vai ler

Parar um instante

não apertar a sedutora

tecla do send, ou do print,

não, nada disso

Deter o movimento; isso

Pressão pela entrega

do relatório, do add, do

gráfico, do ptt

Do artigo, do pulse,

do mel para abelhas

Segurar a onda

contrária que vai

quebrar no meio

do peito ou do nariz

a voz estridente no cel

O adiantamento cobrado

descontado e gasto

assim que a conta viu

vem em dobro, vagalhão,

um tubo sem prancha.

Lá no fundo gosta de

rever, de dar mais uma

olhadinha, comparar as

versões, faltou nada?

As cores e formas, que tal?

Fincar o pé, a opinião

enfrentar a tormenta

revirar o rascunho, burilar

o terceiro parágrafo e a

imagem com sombra

Mais um layer

um filtro, um efeito,

um véuzinho sobreposto

uma graça, um encanto

ou simplesmente a.c.a.b.a.r

Qual a hora, o momento

a fase ou frase perfeita

que define, confere coesão,

permite um final digno

e magnífico

Já está bom, a meia boca

a meia luz, a meia distância,

mediana do que seria o

seu melhor e aquilo que

de fato vai assinar.

Felicidade insuportável

Insuportável o sorriso

radiante, iluminado e

uma felicidade que

exala incrível mais

que chanel nº 5

Alegria constante

destravada para

além da bobagem

e da pilhéria, mais

do que isto

Liberdade de

estar de bem

com a situação

com o corpo

o cargo e a meta

Alinhamento perfeito

com o universo, com o

pretendido, com o script

que sabe-se-lá-quem

escreveu

Sensação de pertencer

de encaixar, de fazer parte

sem pontas, sem conflitos,

sem olhares de banda

ou risinhos

Que insuportável é

fazer parte deste convívio

estar ao lado desta majestosa

referência de gente que se

deu bem

Azedume a cada instante

em que os 33 dentes alvos

reluzentes insistem em se

mostrar pelos mais tolos dos

motivos.

Romper com aquela rotina

ah como queria, se ver livre

daquela prisão de estar

no raio de ação da tal

felicidade alheia

O tanto que pesa o

contraponto de não

estar assim tão efusivamente

em contato com uma

animação interior

Até reclamar era estranho

perto de um ser que, ao que

demonstra, a contrariedade

e o não dar certo passam

distante

Nem uma barata lhe

aparece, nem um regurgitar

do iogurte vencido

nem uma caspinha ou

ziper aberto sem querer

Um derrubar de café

na camisa branca, um

choque na tomada

um palavrão, uma pereba

nada disso lhe alcança

Ô cansaço, ô pesar

e lá no fundo, já sem

culpa, deseja-lhe, do fundo

do seu coração, ao

menos, uma topadafelicidadedo dedão.

Ou um tropeço que

quebre algo valioso,

um vento que descabele

ou mostre que é peruca

ou que de fato, que é de mentira

 

Ajuda a empurrar?

 

Quando o bigode é o ator principal

bigode

Bigode, ralinho, abaixo do nariz,

que desconcertante!

Ninguém esperava isso e

acabou por roubar  a

atenção de todos.

Quase audível a serie

de hipóteses que se mostravam

na cabeça dos que antes lá

estavam, quando entrou,

olhando o smartphone.

Passou por entre todos

e se dirigiu para a frente:

iria falar sobre tema

cabeludo e enrolado

mas o bigodinho foi notado.

Mais do que o corte perfeito

da saia de cara alfaiataria e os

saltos altíssimos, parecendo

saídos da loja fashion, mais do

que o anelão de pedra verde.

Ninguém falava mas os

olhares que se cruzavam e os

risinhos que brotavam sem

controle, mexendo levinho

o tronco pra frente, eram prova

O que faz uma figura destas

tão poderosa e cheia de $ portar

um bigodinho? Seria um protesto

anti misoginia ou um manifesto

de transgeneridade?

Uma pessoa não resistiu e

soltou a pergunta: viu o bigode?

mas..nem era assim tão fenomenal…

mais para buço, enegrecido sob

pele mais clarinha

E os cochichos, depois do primeiro,

seguros da liberação, pipocaram das

pontas pro centro da plateia que estava

ali para aprender sobre o que poucos

sabiam… mas que se perderam em especulação

A expert, a referência, a que muito

conhece sobre, foi apequenada pelo

seu bigode que tomou toda a cena,

todas as mentes da audiência, ainda

sem se inteirar do descalabro.

Que fique claro que pagaram para

ali estar, montante nada desprezível

para o momento; não estavam ali

para galhofa ou bagunça, o ensino

médio ficou la trás.. mas o bigode…

Lá na frente, distante do alvoroço,

testava a apresentação, os recursos de

som e luz, acenava para os assessores

e olhava quase com desprezo para a

platéia que se mexia e conversava.

Posicionou o microfone, exibiu

a tela de abertura com dados de

referência e encarou de espinha ereta

o conjunto de pessoas que pagaram

para lá estar. A luz mostrava o bigode.

Cumprimentou a todos, secamente…

passou aos objetivos que pretendida

alcançar, forneceu seus dados

e iniciou desempaticamente o tema,

avisando que perguntas só ao final.

Mas o que todos queriam e

ansiavam, quase que em sofrimento

não poderiam perguntar; levariam

consigo, em aflição e cólicas de esofago.

Ou algum atrevido iria perguntar: e o bigode?