Quem olha daí

Quem olha daí para cá

revelando tantas marcas

no canto dos olhos e na

testa com olhos sem

brilho, sem cinismo?

 

Cara esquisita mas

nem tanto assim, sabe?…

Conhecia de algum canto

mas era bem inquietante

essa cara no espelho.

 

Talvez fosse melhor

procurar um terapeuta,

um tarólogo, uma mago,

ou era apenas cansaço

profundo e perene.

 

Virou de costas e seguiu

com o encontro grudado

no pescoço, arranhando

a garganta e insistindo

em buscar atenção

 

Muito trabalho, isso sim

precisava tirar uns dias

relaxar, ficar sob menos

tensão e tudo voltaria

ao normal. Normal?

 

Estremeceu só de pensar

que poderia ser sintoma

mais sério esta visão

que teve no espelho

logo depois de acordar

 

Pode mesmo ser sério

e só uns dias de folga…

um check-up deve dar

conta, exames e uma

geral no corpo, isso mesmo!

 

Caso encontrem alguma

encrenca estará mesmo

no início e remédios estão

aí para resolver o problema

aliás, melhor tomar 1 agora

 

Mas qual deve ingerir?

Para pressão, para atenção,

para relaxar os músculos

ou comer menos? Para

fortalecer unhas ou intestinos?

 

Na caixinha de cruz vermelha

na tampa nada lhe inspirava

esperança de combater

a visão… ah.. um banho

lavar bem rosto e cabelos

 

Se bem não fizer, mal tampouco:

era o mantra do avô que sempre

usava. Lembrou dele e de quando

adolescente, quando nunca confessou

que seguia ardorosamente o conselho

 

Entrou com roupas  já ensopando

tudo, desejando, bem lá no fundo, que

o que escorria pelo piso preto e bege

levasse a confusão pelo ralo e que

escorresse, junto com sabão lá para baixo

 

Esqueceu a advertência de racionalizar

a água e ficou por lá, uns 20′, com o choveiro

jorrando água sobre o corpo e a cabeça

aproveitando uns instantes de esvaziamento

e de aconchego na temperatura gostosa

 

Só não poderia ficar lá para sempre

e lentamente fechou o registro de

ponto vermelho, deixando a água

fria trazer o momento presente

bem claro sobre seu tronco.

 

Decidiu não falar sobre a experiência

com ninguém, pois não saberia como

fazer, já que até agora nada entendera;

só um incômodo, arretado e pedregoso

que insistia em inaugurar a semana.

 

 

 

 

 

 

Melhor do que você existem e estão por perto

incapaz

Fez melhor de novo;

entregou mais rápido,

com melhor qualidade,

menor possibilidade

de erros.

Tem sido constante;

e a cada vitória do

outro lado, a dor

deste aqui é

difícil de contar.

Já fica a sensação

de que vai perder

novamente, de que

não entrega, ou ao

menos, não tanto.

Suficiente é uma

adaga que rasga por

dentro. Deseja ser

excelente, isso sim!

Mas.. não é…

O outro brilha!

E tudo faz com

tamanha destreza

que não há como

não se deixar encantar.

Com o encanto a dor

aumenta; o outro sobe

mais um degrau e se

distancia ainda mais

daqui. Dó imenso…

Terá na próxima

semana momento

temível. Vai atuar em

conjunto, no time

do novo job.

Se o abismo não fora

percebido, se não notaram

como a “entidade” se distancia

dos outros, mortais, xiiii!

Doravante vai ficar evidente….

Engraçado como dói

na barriga esse vexame.

Desarranja a digestão,

atrapalha tudo, até a boca

fica mais seca.

Fará melhor, novamente,

tudo o que lhe destinado for.

Isto é garantido, sem matriz

de risco, sem quantificar ou

qualificar. Assim está posto.

Sair de licença? Pedir

transferência, sucumbir

à inferioridade que mora

em sua cabeça?

Pode ser….

Desistir é tão mais fácil…

Dolorido é mas, no entanto,

previne a exposição ao ridículo,

quando todos enfim venham a

confirmar que não é capaz.

Como recuperar um “impostor”?

impostor

 Foram 4 na corrida

2 daqui, 1 do norte outro

do sul. Quatro chances,

4 diferentes para competir

e só ficar 1, o impostor.

Em competências se

pareciam, mas não muito.

Aqui e ali um destaque,

um talento (será?),

um jeito melhor de fazer.

Para os demais, também

não alterava muito; alguns

do time A, outros torcendo

por B, e tb por C e por D.

mas nada manifesto.

Houve o julgamento

pelo board, daquele

que melhor “caberia”

no modelo previsto

e o resultado saiu.

Estava em jogo:

um aumento real

de grana, de benefícios,

de possibilidades de

crescer ainda mais.

Todo mundo querendo

saber…e pronto, escolha feita:

Comunicação realizada,

agradecimentos de praxe,

congratulações, e…e…e…

A nova posição seria

assumida na próxima 5ªf,

num café da manhã .

Grupo grande convidado,

às 8h, no auditório e tudo.

Sabendo da vitória,

soltou um grito, abafado,

mais uma bufada de ar…

e já sentiu um incômodo

que não sabia de onde.

Ideia martelando na

parte inferior do cabelo,

sem dó nem piedade,

sempre a mesma,

sempre o mesmo pensar.

Voltou no dia seguinte

e nada de se sentir

melhor; acenava aos

colegas que sorriam

mas a energia era pequena.

Pensava na 5ªf e o calor se

alternava com um frio esquisito,

êita que não sabia mesmo o

que acontecia, mas… não era

a primeira vez. Nem a segunda…

Olhando no espelho do toilete

fixando mesmo na imagem ali

em frente, repetiu a pergunta

que lhe atravessava a laringe:

“será que dá conta? não creio!”

Quando passou no concurso

foi igual… quase panicou e

aos poucos, foi retornando

a encarar a classificação em

lugar… mas… e agora?

Tentar uma licença?

Pedir demissão?

Ceder a vez para outro?

De fato, como fica?

Sempre se viu como uma fraude.

 

Como superar a sensação de ser uma fraude?

 

 

Bastou pedir : quando executar uma tarefa vira escaramuça

queda de braço

Bastou pedir

e já sabia o que

poderia vir

queda de braço

em retorno.

Olhos para cima,

enviesados,

ombros subindo

e descendo

e uma bufada.

Isso tudo

já sabia, mas

não identificava

como contornar

afinal, precisava.

Aguentar mais

um revirar de

“zoinho” era o

cenário e dele

fazia parte.

Se subisse o

tom da voz

quando pedia

seria o centro dos

olhares repressores.

Se pusesse mais

energia, corria o

risco de paralisar

o outro lado, um drama,

ao que parece, premeditado.

Só uma tarefa

nada de Sísifo

nada de Hércules

nem ao menos

uma maratona.

Carregava já

um desanimo

que contraiu faz

tempo neste

contato muito chato

Como não era

santidade, também

já ia de cara-fechada,

o que só contribuía

para o mal-estar

Responderia como

à Nicodemos

e enfeitando com parábolas,

quem sabe o milagre

teria lugar e também a tarefa?

 

 

 

 

Qual é o tom é a sua voz?

Resultado de imagem para o tom da sua voz

Imagem

Quando ouvia sua

própria voz não gostava

muito, nem do timbre

nem do jeito de falar

mesmo

Juventude já tinha ido

nem tanto assim, mas

já era para ter outro

som, mais encorpado

mais presença.

Tinha lido sobre,

estudado alternativas

talvez uma fono, ou

vídeos youtub de um

melhor posicionamento.

Sentia um mal estar

ao telefone. Muitas vezes

aos outros parecia tratar

com criança. E  toda sorte

e brincadeira que não ria.

Na sua família ninguém

havia sido marcado com

esta forma mais aguda,

mais infantil, menos

agradável de se ouvir.

Seria vingança de outras

eras, ou alguma doença?

Mas era tão saudável, exames

em ordem… Mas quando falava

muitos acabavam por rir.

Fazer cursos, contratar

profissionais, fazer tudo

junto e mais gargarejos,

exercícios, barulhos com

a boca. Será que conserta?

No escritório era uma

encrenca sempre que

tinha reunião ou quando

era para apresentar resutados

lá na frente de estranhos.

Convívio difícil e faz tempo

tudo um dia aborrece mais do

que devia e decidiu que bastava

que era o momento da virada

e de subir realmente o tom.

Seria em segredo, as aulas

o tratamento, os exercícios

e ao final, uma belíssima

exposição oral, com desenvoltura,

e piruetas semitonais

Mostraria a todos, sem

faltar unzinho como transformara

sons esganiçados em suaves,

aveludados, quentes e até

sensuais variações da sua voz.