Você não sabe discutir – nem eu

Fazia tempo que divergiam

Sobre o tempo, sobre as cores,

sobre sabores e ventos,

sobre sinais, sobre bobagens

e o que importa é discutir

Começavam no tema

e rapidamente se afastavam,

percorrendo caminhos de

ressentimentos antigos,

cozidos no escuro, lá no fundo.

Qualquer motivo era bom

para discutir, para elevar um

pouco, a cada argumento, o

tom da voz. O cinismo era

sempre convidado também.

Tempos outros, outros tempos

em que as ideias podiam ser

diferentes, opostas ou apenas

em pequenas divergências e

o lado cético era de bom tom

Sem perceber como,

uma fronteira, uma divisão

foi aparecendo bem no meio

e a cada palavra de um, o

outro sentia a estocada.

Perdidos em discutir

em nada avançavam,

perdiam o fruir,

fomentavam refluxo,

azedavam o clima.

Contaminados, ao redor

sentiam a necessidade

de escolher um lado.

Já se armavam contra

para outras guerrinhas.

O gosto por combater

acabou fincando bandeira

e aqueles que antes se viam

próximos, nem mais se viam

na confusão do quem tem razão

Opinião pode haver

E sempre há. Na construção do

argumento há espaço para

respeitar quem se opõe.

Só o justo embate é fidalgo.

 

 

Opinião e argumento

 

 

 

 

 

 

 

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